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  • rodolfominari

NOVE ESPADAS

Na cozinha, mientras arde a lenha, no fogão,

ouço, da janela, ríspidos ruídos de metal sendo afiado.

Uma a uma, nove espadas ficam prontas. Tine o aço agudo.

Vibra o labirinto. Sinto um leve arfar de asas queimadas

e minha avó, que ‘inda alimenta o fogo, me pergunta: Tudo bem?

Lá fora o som cessa. E o silêncio brusco, obtuso,

mais me amedronta e acua que o amolador e as lâminas.

Vovó pega o bule, serve três cafés e arria, e sua, sobre o sofá velho.

Olho suas rugas, calos, seus olhos miúdos, sua dor na alma.

A primeira espada apenas começou a dar seu talho.

Somos eu e ela. A terceira xícara cabe a uma ausência.

O café jamais sorvido brilha aos matinais solares,

sob os quais esfria lentamente. Meu silencioso trago

cumpre a reverência, mas engulo o gole ansioso, arfante;

rompo o espectral assombro e ela ergue os olhos,

com tamanho esforço que me doo, amuo.

Passo a ela a xícara vazia e morna. Lê-me a borra - pouca -,

vaticina sonhos, sela-me esperanças.

A segunda espada arranca um grito mouco.

Vovó tem setenta, cãs, dores, pelancas.

Sua fala elíptica significa-me o mundo, a casa, o antigo,

o oculto, letra a letra, tal como um saber hermético, hierático,

esotérico, amplo, vívido e profundo, cujos graus avanço

com medida pressa, a qual controla em jogo; arma e atiça a chama,

cala e continua. Ontem vi-a ao fundo, calma, estava nua.

Nunca fala de vovô. Nunca se exalta. Traz na caixa arcanos de tarô,

só eles hablan. Quer adivinhar-me a sorte. Não pergunto nada.

A terceira espada é silêncio cortante.

Abuelita é gringa - Santa Cruz, Bolívia -, mística, cigana;

abre as cartas, saem-me o pendurado e o louco e a sacerdotisa e o carro

e, no centro exato dessa cruz, o diabo. Franze o cenho e os pulsos,

geme um desconforto. Olha-me tão fundo que me assusto e corro.

Quero olhar pra trás e desvelar meandros dessas vãs ruínas.

Ela aponta à frente, dá sentido ao mundo, cerra o carro e o louco.

A sacerdotisa é ela; eu, o pendurado. Caem-se-me as moedas.

Já vazios os bolsos, sinto inflar o espírito, as costelas, tudo.

A quarta espada é cruz, é guilhotina, a funda.

Batem à nossa porta. Será, já, o diabo? Ou o fantasma, a sombra,

o eco, a atroz relíquia, o vento assolador, o frio, a fome, a morte?

À menção de abri-la, ergue o dedo a velha, apenas toca os lábios,

compreendo tudo. Paro, sento, aguardo. Não batem de volta.

A quinta espada é raio e foge a trote solto.

Fale de vovô, vovó, hoje eu lhe imploro. Clamo e oro, choro,

tenho as mãos sedentas. São cuias vazias, não lhe causam pena?

Guarda esses teus dedos - me responde e aponta -; pega o lápis,

marca a angústia e o nome dele; teus antepassados recebam perdão.

Sexta espada é a pena que hesita em senões.

Ah, se eu já soubesse que doera tanto, imaginasse a causa

de tantos verões, primaveras calada, absorta, amuada,

não insistiria tanto, ao canto, sobre o fio da adaga.

No outono inteiro ela trabalha, estuda, risca seu diário,

enche folhas mortas de grafite e lágrimas. E no inverno,

queima junto à lenha as páginas sofridas, torna a ferver

água, faz café, destila. Bruxa, uma alquimista, voz da natureza.

Serve outra vez três xícaras. Não ensina. Morrerá com seus segredos

e sabedoria. Minha avó é louca e deusa, vai sem rastro ou pistas.

Sete espadas já cravadas sobre meus delírios.

Onde estão suas joias? Onde, a ametista? Fosse Deus piedoso

e ela me contaria. Tem a cura, o antídoto, ama a medicina,

mas esconde a chave, se envenena, expia. Dá adeus à vida,

faz-me olhar parado, impotente, anímico.

A oitava espada rasga sem aviso.

Abre a pele, deixa vir à superfície o carma, o vício.

Meu avô, somente a foz de seu suplício; e eu, quem sou

na história? Onde o meu arbítrio? Minha avó se vai e não

há mão que impeça. Rasga-se-me a carne, a alma, cada osso.

Dois cafés esfriam e o terceiro eu sorvo.

Nove espadas caem sobre minha cabeça.

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